O Starship chegou à órbita. Mas a aposta de verdade é outra
No voo 14, o maior foguete já construído deu a volta na Terra pela primeira vez. O que pode mudar o preço de ir ao espaço, porém, é fazer esse prédio voar de novo, e de novo.
Starbase, TexasMissão Starship · Voo 14

Créditos das imagens, da música e da voz
- 1. Starship decolando de Starbase, no Texas, durante o voo de teste 11, em outubro de 2025. Foto: Shujianyang · CC BY-SA 4.0
- 2. Starship montado ao lado da torre em Starbase, com um jipe na areia dando a escala; versão anterior do foguete, em 2022. Foto: Hotel Pika · CC BY-SA 2.0
- 3. O propulsor Super Heavy descendo com os motores acesos em direção aos braços da torre, no voo de teste 5, em outubro de 2024. Foto: Steve Jurvetson · CC BY 2.0
- 4. Rastro do lançamento do voo 6 do Starship sobre o litoral do Texas, fotografado da Estação Espacial Internacional em novembro de 2024. Foto: NASA · Domínio público
- 5. Starship iluminado ao lado da torre de lançamento à noite, com a Lua se pondo no horizonte; versão anterior do foguete, em 2022. Foto: Hotel Pika · CC BY-SA 2.0
- Música (provisória): “Meditation Impromptu 02”, Kevin MacLeod (incompetech.com) · CC BY 3.0
- Narração (voz provisória, de teste): Voz clonada (Qwen3-TTS, gerada no PC)
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Quantos lançamentos de reabastecimento um Starship precisa para ir à Lua?
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Presta atenção nessa cena. Starbase, no sul do Texas, 28 de setembro de 2026. O maior e mais potente foguete que a humanidade já construiu acende os motores, sobe rasgando o céu e, pela primeira vez, chega à órbita. Não foi no primeiro voo. Nem no quinto. Foi no décimo quarto.
Só que tem um detalhe que quase ninguém comentou no meio da festa: chegar à órbita nem é a aposta principal da SpaceX. A aposta de verdade é outra, e no caminho dela tem um muro que ninguém derrubou ainda. Segura essa, que no fim a gente chega lá.
Primeira parte. O tamanho do monstro
Número solto não diz nada, então pensa comigo. O Starship tem cerca de 124 metros de altura. O Cristo Redentor, contando o pedestal, tem 38. Ou seja: são mais de três Cristos empilhados, e essa torre toda voa.
Lá embaixo, no primeiro estágio, ficam 33 motores Raptor. Juntos, eles empurram com mais do dobro da força do Saturno V, o foguete que levou os astronautas da Apollo até a Lua entre o fim dos anos 60 e o começo dos 70. É o foguete mais potente da história.
E o voo 14 não foi perfeito, é importante ser honesto sobre isso. Um dos motores da nave desligou antes da hora, ainda na subida. Os outros cinco queimaram por mais tempo pra compensar, a nave chegou à órbita e soltou 26 satélites Starlink da nova geração. O plano era ficar quase dez horas lá em cima; por precaução, a equipe trouxe a nave de volta umas três horas depois do lançamento. Ela desceu no Pacífico, ao norte do Havaí: veio de barriga, virou de pé no último instante, freou com os motores, tocou a água no ponto marcado e aí tombou e pegou fogo, como já era esperado. A SpaceX considerou o voo um sucesso.
Parte dois. A aposta: um foguete que volta inteiro
Agora vem a parte que importa. Quase todo foguete da história foi jogado fora depois de um uso só. Imagina fazer isso com avião: voar de São Paulo pro Rio e jogar o avião fora na chegada. A passagem ia custar uma fortuna, né? Com foguete, sempre foi assim.
A SpaceX já reaproveita a parte de baixo do Falcon 9, o foguete menor dela, algumas unidades mais de 20 vezes. Com o Starship, o plano é reaproveitar tudo: o propulsor gigante e a nave de cima, voando de novo e de novo, que nem avião. E olha o caminho até aqui:
- Abril de 2023: o primeiro voo. O foguete começou a girar sem controle e explodiu no ar.
- Outubro de 2024: a torre de lançamento pegou o propulsor no ar, já descendo, com dois braços mecânicos que o pessoal apelidou de "hashis".
- Maio de 2025: pela primeira vez, um propulsor que já tinha voado subiu de novo.
- Setembro de 2026: a nave chega à órbita.
Só que repara no que falta: a nave, a parte de cima, nunca foi pega pela torre. A SpaceX chegou a mirar essa captura pro voo 14, mas a nave acabou descendo no mar. Enquanto a nave não voltar inteira pra voar de novo, a reutilização total continua sendo promessa.
Parte três. O muro do combustível
E aqui entra o muro que eu te falei lá no começo. Deixa eu te contar quem foi que sacou isso primeiro. Em 1903, um professor russo chamado Konstantin Tsiolkovsky, quase surdo desde criança, que dava aula no interior da Rússia, publicou uma equação que manda em todo foguete até hoje. E ela diz uma coisa meio cruel: você precisa de combustível pra carregar o próprio combustível. Cada litro a mais pesa, e pra carregar esse peso você precisa de mais combustível ainda. É uma bola de neve.
Por isso o Starship chega na órbita com o tanque praticamente vazio, na reserva. Pra ir até a Lua, ele precisa ser reabastecido lá em cima, por outras naves que sobem só levando combustível, uns navios-tanque espaciais. E não é um nem dois: a SpaceX fala em uns dez desses voos pra uma única ida à Lua, e a NASA já estimou que a operação inteira chega perto de vinte.
Sabe o KC-390, o avião da Embraer que reabastece caça em pleno voo? Agora imagina isso com duas naves do tamanho de um prédio, a 28 mil quilômetros por hora, passando um combustível que precisa ficar a mais de 150 graus negativos pra não evaporar. Já mandaram combustível comum, em pouca quantidade, pra estação espacial. Mas passar toneladas desse combustível supergelado de uma nave gigante pra outra nunca foi feito. O teste estava previsto pra 2025, foi empurrado pra 2026 e, até o fim de setembro, ainda não tinha data.
O que esse voo muda de verdade
Então, lembra da pergunta do começo? Chegar à órbita é só a portaria do prédio. A aposta de verdade é a reutilização total, e pra ela valer na prática ainda falta a nave voltar inteira e falta o reabastecimento em órbita funcionar.
Se der certo, o preço de cada quilo levado ao espaço despenca, e uma base na Lua fica bem menos impossível. Não é à toa que, em fevereiro de 2026, o próprio Elon Musk disse que a prioridade agora é a Lua e que Marte fica pra depois. Do lado da NASA, o pouso tripulado na Lua foi empurrado pra missão Artemis IV, no começo de 2028, e um dos módulos de pouso que vão ser testados antes disso é justamente um Starship.
O Starship pode resolver a estrada. A casa do outro lado é outra conversa.
E você, quando acha que a gente vai ver gente morando e trabalhando na Lua de verdade? Deixa seu voto na enquete aqui embaixo. E se quiser a outra metade dessa história, procura no canal o vídeo "O Sonho de Colonizar Marte Morre Hoje": aqui o Starship resolve a estrada; lá a gente mostra os quatro jeitos que Marte mata quem tenta morar lá.
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O Sonho de Colonizar Marte Morre Hoje
Os quatro principais obstáculos para viver em Marte e por que o planeta não pode virar uma segunda Terra.
Fontes
- SpaceX — Starship Flight 14 (resumo oficial do voo)
- Space.com — Starship chega à órbita pela primeira vez no voo 14
- ABC News — Starship desce no mar após o primeiro voo orbital
- R&D World — primeiro propulsor Super Heavy reaproveitado (voo 9, maio de 2025)
- Satnews — SpaceX mira a primeira captura da nave pela torre
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